segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

[TEXTO] Se eu não tivesse...

       


         Agora eu me questiono, não que antes não o fizesse porem o peso se tornou um fardo enorme. Se eu não tivesse estudado até tarde para esse concurso que para mim significava vida ou morte (olha a trágica referencia) eu não teria acordado com meia hora de atraso, exatamente 30 minutos que me levaram a onde estou...
          Eu não teria me arrumado as pressas desesperada com esse deslise, não teria chegado ao trabalho esbaforida de tanto correr. Por sorte meu chefe nunca foi um desses trogloditas que querem a pele de seus funcionários, quando cheguei lá fui logo me explicar e ele apenas me pediu para ficar esses monstruosos minutos de atraso depois do expediente. O dia geralmente já era cansativo mas nesse em questão foi maior, acho que o universo persentia o que iria acontecer. Eu era toda felicidade pois ficar até mais tarde não era uma das piores advertências, porem teria menor tempo para estudar.
         Se tudo isso não tivesse acontecido eu não teria pegado o circular as 20:00 hrs totalmente esgotada e cansada, porem no momento a vida seguia e o sonho de finalmente alcançar o que eu queria não estava tão longe, talvez mais alguns meses nessa correria e tudo ficaria bem, mais calmo e tranquilo, aquele pensamento me fez sorrir como em anos não fazia.
         Seu não tivesse acordado atrasada não desceria no ponto final exatamente no momento em que o poste na quadra de cima queimou. Nunca fui medrosa, porem as pessoas e suas crueldades ultimamente me botavam um pouco de medo sim, analisando as minhas opções decidi ir pela outra quadra onde havia o outro poste em perfeito funcionamento.
         Se eu não desejasse tanto passar nesse concurso, se eu não sonhasse por uma vida melhor, se eu não pegasse esse ônibus, se eu não tivesse medo das pessoas, pois elas deveriam ser boas afinal de contas... eu não teria seguido tranquilamente pela calçada, e enquanto eu chegava perto da esquina com o poste que ainda funcionava, não teria me sentido tão mal, e também não teria batido de frente com aquele rapaz ao virar a esquina, dali eu via a minha casa, solitária como eu, aconchegante e quentinha, como eu não fiquei, ela ainda está me esperando eu acho.
         Eu vi seu olhar e isso bastou para me dizer que aquele era o meu fim, não vi de onde veio, na verdade nem a dor da faca sendo enfiada em minha barriga me despertou, foi o medo, a paralisia de saber que por dormir por mais 30 minutos eu estava ali, naquela hora, sendo tirada de mim.
         A minha vida naquele dia foi um grande SE, eu sempre me questionava de brincadeira com esses SE, mas agora eu entendo que eles me levaram a morte.

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